sábado, 7 de março de 2009

A CRÔNICA DO ROBERTO

Começava os anos 60 e eu já me sentia “GENTE”.

Lembro que a cidade era dividida entre Católicos e Evangélicos, que se subdividiam em ricos e pobres. Havia três turmas bem identificadas: os do CENTRO, os da PRAIA e os da PICADA.

O CINE AVENIDA era o atrativo dos fins de semana, e após o término da sessão, a maioria se deslocava ao Restaurante do Clube Caixeiral para tomar uma GILDA - sorvete com Grapette - ou detonar um Bauru ao Prato.
Os mais endinheirados iam para a Sede do Lajeadense, jogar snooker a dinheiro.

Dentro do cinema as famílias sentavam na parte central.
Dois amplos corredores separavam as cadeiras que ficavam nas laterais, onde de um lado sentava as turmas do centro e praia e do outro, os que vinham das picadas: Picada Moinhos, Carneiros, Olarias, passo de Estrela ...

Apagavam-se as luzes, silêncio total, para em seguida espocar um beijo do Paulo Alceu na Helen... Algo inaceitável na época! Imediatamente ouvia-se o murmurinho dos conservadores sentados na parte central.

Alguns moleques levavam um pequeno arco de arame, com um atilho que era torcido no centro por uma pequena madeira. Deixavam o brinquedo armado sob pressão debaixo da perna. Quando levantavam a perna o atilho voltava ao normal, mas o giro da madeirinha batendo no assento da cadeira dava um barulho perturbador, e assim começava a sessão com os trailers.

Antes do filme era obrigatório passar uma espécie de “Voz do Brasil”: o “CANAL 100”, com notícias quase sempre com alguns meses de atraso. Mas, dentro deste noticiário, havia um momento que era mágico. Bastava começar o “tan, tan” da vinheta para os dois corredores explodirem.
Era o taipe de algum jogo de futebol. Todos só vibravam juntos quando era a seleção Brasileira, nos demais, sempre opostos: os do CENTRO e PRAIA contra as PICADAS.

O CABELINHO e o seu DONGA que faziam a segurança, logo apareciam com seus foquinhos tentando acalmar e disciplinar a turba.

Um dia porem a coisa extrapolou...
Além das bolinhas feitas com os saquinhos de pipoca e resíduos de sal, que devido ao seu pouco peso caiam muitas vezes na cabeça dos conservadores, voaram tampinhas de garrafas e voaram também algumas garrafas... Em resposta voltaram alguns assentos das cadeiras.

Armou-se uma verdadeira guerra entre os dois corredores, e tudo que podia ser catapultado, era lançado entre os dois lados. Estabeleceu-se uma grande baderna.

No meio da confusão o Centrão se mandou, e quando as luzes acenderam, praticamente permaneciam apenas os beligerantes. Aos poucos todos foram saindo e a sessão acabou sem passar filme algum.

Como em cidade pequena todos são conhecidos, os baderneiros foram identificados.
No dia seguinte, os colégios suspenderam os alunos participantes. Os pais deram o devido corretivo em seus filhos, e os do Centrão liderados pelo seu Chico Jaeger, construíram um novo cinema, o CINE TEATRO ALVORADA, no qual o acesso nos primeiros tempos, era permitido somente a famílias e casais de namorados.

Enquanto isto o Cine Avenida, por pouca freqüência de público, alguns anos depois encerrou suas atividades.
Roberto Ruschel


3 comentários:

Micro Man disse...

Roberto, com a desestímulo da Laura, poderias liderar um blog com teus contos e crônicas.
Claro que de vez em quando precisa sobrar alguma alfinetada para a política e os políticos, mas terias boa frequencia de acessos, com garantia de comentários ácidos deste que te escreve.

Quando jovem, e super herói, assiti muitos filmes nos dois cinemas, no Avenida, mais modesto, e no Alvorada mais chique e confortavel. No primeiro rodavam filmes de categoria inferior e eu podia assitir por que ganhava ingresso coretesia pela entrega de alguns jornais "O Informativo". O segundo, mais moderno, passavam filmes mais atuais. Iniciavam sempre os filmes, como diz o Roberto, com um noticiário de alguns meses atrás e de jogo, normalmente dos times do centro do país - Flamengo, Corinthians, Santos, em vitória contra um time da preriferia. Isto quando não era da Seleção Brasileira.
Assisti no Cine Teatro Alvorada, a "Oitava Maravilha do Mundo" - como foi conhecida na época, o filme "King Kong". Também não era preciso o filme ser muito bom para lotar as quase mil cadeiras do Alvorada nos domingos a noite.

O apagão de idéias generalizado e aceito tem um de seus fundamentos aí: a ausência de boas casas de espetáculos. Sem saudoisimo, mas Lajeado, neste aspecto, já foi melhor servida.

Serjao disse...

Dou forca pra sugestao do "Micro":as memorias e historias que guardamos do passado precisam ser perpetuadas de alguma forma e o Roberto, pelo visto, sabe de todas...e outras mais. Quem nao sabe ou se esqueceu de onde veio, nao vai entender ou saber para onde esta indo, e ou nao e? Com a falta da Laura, ficou um vazio, que precisaria ser preenchido. Ao menos ate que ela re-considere.

Roberto Ruschel disse...

Micro Man e Serjão, agradeço a sugestão, mas minhas atividades não permitem o tempo necessário que o compromisso requer. Minha sugestão é de como não podemos orientar o vento, vamos ajustar a nossa vela...um abraço a todos e obrigado por esta convivência virtual.