sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

QUERIDO DIÁRIO...


Manhã de mamografia. Caindo de sono lá me fui cumprir o que manda a cartilha saudável  - para desafogo de consciência. 
A Luciane me atende. Conheço-a desde pequena. Filha do Oscar e da Maria. 
Pois é: sento, espero, avisto uma revista com um cara na capa que conheço não sei-de-onde. Leio: “O diário amoroso de Carlos Lamarca”. 
Opa! Nem me importo de aguardar que a recepcionista se lembre de mim.
Ah, um diário amoroso...

Quem de vocês ainda escreve diário?
Um diário de verdade, viu? De caderno de capa dura tipo álbum, manja? E ainda por cima amoroso. Amoroso!
Já escrevi muitos diários. Amoroso nenhum.

Lamarca foi um guerrilheiro esquerdista, dos idos 68-71, que morreu assassinado numa emboscada dos militares brasileiros. Tem filme, tem livro sobre o assunto. Nas locadoras: Batismo de Sangue.  Vale à pena.
Lamarca se apaixonou por Iara,  colega revolucionária. Assim como Rosa de Luxemburgo  por Leo Jogiches. Ta tudo na  revista “Isto é” de 28 de fevereiro de 2007.
Como a revista já tem mais de quatro anos, com certeza o pessoal da mamografia não vai sentir falta, pensei assim que a moça chamou e, sem querer, ops, Lamarca escorregou para dentro da minha bolsa. Acontece, né?

Em casa, feito uma voyeaur, leio trechos do diário amoroso do capitão e suspiro:

“Quando estou longe de você, tudo muda. É outro mundo, falta aquele calor que só emana de você mesma – fico imaginando e me delicio com tua lembrança, toda viva, junto de mim.”

E dizer que um cabra muito macho escreveu palavras tão... tão cálidas?
Escreveu porque afastado da mulher que ama.
Não interessa, bocuda, quer coisa melhor do que ser lembrada como “viva” dentro de alguém?  Amor de longe, mas presente no cheiro, no sabor do beijo, no riso, na compreensão do saber ouvir. Com certeza a Iara não era uma matraca. E, com certeza sabia trocar botijão de gás, trocar lâmpada e, desculpe, empunhar uma arma. Não esqueçam que era uma revolucionária. Uma espécie de Maria Bonita urbana. Aquela do Lampião, do cangaço, lembram?

“Te amo, te adoro. Segue esta carta impregnada de amor – vou te ver nem que seja a última coisa da minha vida e mil beijos do teu amor.”

Diário, carta de amor, se desejar ardentemente ao vivo e a cores. Ó netvida, nada restou nesses dias de msn e twitter. Tampouco linguagem. Ou inspiração. Quando foi que você ouviu, pela última vez, te amo, te adoro, me diz, amiga?

“Uma coisa é absoluta, inexorável – você minha mulher – e isso é o que de mais lindo me aconteceu na vida. Se é antidialético crer no absoluto, no eterno, eis-me, nesse caso um antidialético ferrenho. Saudades imensas, muito amor; só teu.”

Puxa vida... Ser romântico usando “inexorável” e “antidialético” não é pra qualquer um.
Coisa de guerrilheiro mesmo. 
Podem suspirar.

5 comentários:

vghiorzi disse...

Cara Laura:
Em primeiro lugar, parabéns pelo blog. Acompanho quase diariamente. Considero leve, sem ser superficial, e sério, sem ser sisudo. Informativo e agradável, na medida. Meu interesse pelo blog é porque passei toda a minha adolescência em Lajeado.
Acho que cheguei a escrever em uma coluna tua (coluna da Pimentinha, pelo que me lembro)há uns trinta e poucos anos.
Queria fazer um pequeno reparo à matéria sobre o Lamarca. O filme que tu mencionaste (Batismo de Sangue) é sobre outro guerrilheiro chamado Carlos, o (Carlos) Marighella. O filme sobre o Lamarca - com Paulo Betti no papel do próprio - se chama Lamarca mesmo, e é baseado no livro Lamarca - o Capitão da Guerrilha, de Emiliano José e Oldack Miranda.
Desculpa o tamanho da mensagem.
Abraços!
Victor Hugo Ghiorzi

Laura Peixoto disse...

Putz, Ghiorzi... q. barrigada.
Agradeço a correção.
Agora foi... pro brejo.

Anônimo disse...

Lamarca foi capitão em POA, roubou diversas armas do quartel, o 18º BIMTZ e saiu pelo Brasil a sacanear até ser morto na guerrilha no norte do país. Se era um "bom camarada" ou não cada um deve julgar de acordo com o bom senso. Quem viu o filme e conhece a história sabe que o Lamarca é pura utopia...

Roberto Ruschel disse...

Parabéns a postagem do anônimo acima

Antônimo disse...

se os nossos intelectuais não protegerem a verdade, este sujeito ainda vai virar Herói nos livros da Historia do Brasil, fatos que já vem ocorrendo. Quem está numa faixa etária de 60 anos e viveu a contra-revolução de 64, vai ficar abismado com o que está sendo escrito em determinados livros didáticos, parece até que se referem a outro país.